Todos já ouviram em alguma parte a discussão sobre a questão de uma suposta oposição entre razão é fé, que deve ser solucionada por meio de um sem número de malabarismos mentais e argumentos pseudofilosóficos.

A realidade é muito diferente. Na prática não existe essa questão a não ser como uma construção meramente abstrata. Senão vejamos: Quais as decisões em nossa vida que seriam baseadas no uso exclusivo da razão e quais se baseariam apenas em algum tipo de fé? A verdade é que nenhuma.

Suponhamos duas afirmações: 1) Dado um triângulo retângulo, o quadrado de sua hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos seus catetos. 2) Jesus caminhou sobre as águas do mar. Qualquer um diria que a aceitação da primeira depende da razão e que a segunda depende da fé.

Mas as questões sobre as quais temos de tomar decisões no dia-a-dia são muito mais complexas, e o número de variáveis infinitamente maior do que a medição de uma figura geométrica ou da aceitação de um fato que, por mais inusitado que seja, não tem maiores conseqüências.

Se decidirmos nos submeter a uma cirurgia, não será porque os médicos nos fizeram uma demonstração matemática irrefutável. Não escolheremos o hospital depois de um criterioso estudo de suas instalações, da análise de sua administração e do currículo de seus funcionários.

Tomaremos essas decisões por termos fé no diagnóstico de médicos em quem confiamos. Escolheremos o hospital por confiarmos nas recomendações de pessoas que já utilizaram seus serviços. Em outras palavras, nossas decisões terão muito pouca relação com o uso de nossa própria razão.

Da mesma forma, se somos cristãos, aceitaremos que Jesus andou sobre as águas porque isso está escrito nos evangelhos, que existem ha dois milênios; é aceito por várias igrejas e também é a opinião de milhares de clérigos e milhões de crentes como nós. Em resumo, isso nos parece razoável.

Mas, se alguém nos afirmar que um determinado jogador de futebol ou um cantor de rap é capaz de ressuscitar os mortos, a questão é muito diferente. Imediatamente exigiremos uma imensa quantidade de provas cientificas, de demonstrações e de documentação, para que passemos, eventualmente, a acreditar nisso.

Por outro lado, praticamente nenhuma pessoa sem uma excepcional formação em matemática e física, é capaz de realmente entender a teoria da relatividade. No entanto nós a aceitamos sem maiores discussões, com suas respectivas conclusões, que muitas vezes ferem o nosso bom senso.

Por que nós, levados pela fé, não aceitamos sem discutir que alguém ressuscita os mortos durante um jogo de futebol ou num show musical, e levados pela razão, não rejeitamos uma teoria incompreensível que nos afirma que dois relógios marcam tempos diferentes, dependendo da velocidade em que se desloquem?

A resposta a essa aparente ambigüidade é simples: Acreditamos na proeza de Jesus e na teoria de Albert Einstein porque a maioria das pessoas que conhecemos também acredita. Em outras palavras, nossas crenças são ditadas pela opinião da maioria e não por irrefutáveis demonstrações lógicas ou por ou surtos irracionais de fé cega.

Segundo a opinião do novo papa Bento16: “A verdade não é determinada pelo voto da maioria” (citado por VEJA, 27/04, pág. 75). Pois bem. Essa afirmação parece bastante coerente. Não se pode fazer uma eleição para se determinar o valor correto das incógnitas de uma equação matemática, nem teria sentido um plebiscito para definir a validade da lei da gravitação universal.

O papa vai mais longe: “A sensação de que a democracia não seja ainda a forma justa de liberdade é bastante geral e se difunde cada vez mais”. Ou seja, uma forma “justa” de liberdade ainda está para ser proposta. A democracia não é de modo algum suficiente.

Há muito de verdade em tudo isso. Só que existe um sério problema para as pretensões do ex-cardeal Ratzinger. Como se pode estabelecer o que seja a “verdade” a não ser pela razão? A teoria da relatividade pode ser provada alem de qualquer dúvida. A afirmação de que alguém andou sobre as águas no mar da Galiléia não.

As hipóteses cientificas podem ser testadas por qualquer um. As afirmações com base na fé só têm valor caso estejam ligadas às tradições e as instituições que as sustentam. Nesse caso, a verdade do papa se aplica apenas aos que aceitam sua opinião. A verdade dos protestantes, judeus, muçulmanos, hindus e budistas, ou dos que simplesmente não tem religião, será necessariamente diferente.

O fato de Albert Einstein ser judeu, alemão e ateu, não impede um muçulmano de aceitar a teoria da relatividade, caso seja capaz de entende-la. Mas um católico jamais aceitaria a “verdade” de que Alá é o único Deus e Maomé o seu único profeta.

Por outro lado, em questões complexas e polemicas, envolvendo ética, comportamentos e novas realidades, é impossível estabelecer uma “verdade”. Simplesmente as ciências não têm respostas e as diversas correntes de pensamento, religiosas ou não, estão divididas, mesmo entre seus próprios membros mais eminentes.

Nesse caso, a resposta da democracia é simplesmente optar pela opinião da maioria - sem a pretensão de que essa detenha de fato a verdade – ao invés da imposição, por uma minoria, da suposta verdade que diz possuir.

O que o novo papa pretendeu dizer na realidade é que a democracia é falha porque não necessariamente aceita a sua “verdade”. Se num plebiscito se admite o divórcio, o direito ao aborto ou a união civil entre pessoas do mesmo sexo, isso é uma falha grave da democracia, que não vê que a “verdade” sobre esses assuntos está exposta nas encíclicas dos papas, da mesma forma que os postulados da geometria e da matemática.

Se os representantes de um Estado, eleitos pelo povo, decidem distribuir anticoncepcionais para mulheres pobres ou camisinhas para combater o flagelo da AIDS, é porque se recusam a ver a “verdade”, perfeitamente demonstrada pelas interpretações da bíblia feitas pela igreja católica.

Talvez a forma “justa” de liberdade - que transcenderia a democracia - que Bento16 esteja propondo, tenha alguma relação com o sistema em que as pessoas viviam nos tempos de maior esplendor da instituição que ele presidiu como cardeal: A Santa Inquisição.