Desde abril de 2004 cerca de quatro mil famílias ocupam uma área de 89 hectares de terra urbana, na região do Parque Oeste Industrial, em Goiânia. Durante a campanha eleitoral para a prefeitura os principais candidatos, Íris Resende (PMDB) - agora prefeito - e Sandes Junior (PSDB), estiveram no local e não só declararam sua solidariedade aos ocupantes como incentivaram a construção das casas na área. Ninguém perdeu tempo e os cerca de 12 mil moradores do Sonho Real ergueram mais de três mil casas em meia água, em lotes de 10m por 20m, demarcaram ruas e áreas reservadas para posto de saúde e até posto policial.
Até a entrada dos sem-teto de Goiânia, o terreno era conhecido como área de desova de cadáveres e de estupro de mulheres. Abandonada desde 1957, a área hoje é reclamada por duas famílias, mas na Prefeitura não consta o pagamento de qualquer imposto. Os ocupantes chegaram a firmar um acordo com a Prefeitura e o Governo do Estado em que a área seria desapropriada e eles arcariam com o pagamento de um terço do valor estimado do terreno. Mas por pressão do presidente da SECOVI, Maurício Resende – que teme o avanço dos sem-teto na cidade - uma das famílias que reivindica a propriedade do terreno foi convencida a não aceitar a proposta.
Desde setembro existe um mandado judicial, a partir de uma ação do MP de Goiás, que garante a desocupação e a reintegração de posse a uma das famílias que reclama a propriedade. Mas por questões políticas nem a Prefeitura e nem o governo estadual tiveram condições de fazer cumprir a ordem judicial.
Nas últimas semanas, tanto o Governo do Estado quanto a Prefeitura decidiram investir contra os moradores do Sonho Real e têm montado incursões noturnas da PM para causar pânico entre os ocupantes. No entanto, em função das promessas de Íris e Sandes de que poderiam construir sem susto, os moradores investiram o pouco que tinham e até o que não tinham para levantar suas casas. Agora estão dispostos a ir às últimas conseqüências para defender sua moradia.
Nas suas ofensivas noturnas contra o Sonho Real a PM tem utilizado bombas de efeito moral e disparado contra as casas com balas de verdade, embora alguns comandantes afirmem que se trata de balas de borracha. Prova da truculência da PM são as inúmeras marcas de perfurações nas casas e as centenas de projéteis e pedaços de bombas encontrados pelos moradores após os conflitos.
A disposição de resistência dos ocupantes é grande e a polícia tem sido recebida com barricadas improvisadas e rojões. No confronto da madrugada desta 3ª feira, 15 de fevereiro, dois moradores e um policial saíram feridos.
Há alguns meses quando Lula esteve em Goiânia, os moradores do Sonho Real entregaram um dossiê sobre a situação ao presidente. Lula disse que estava solidário a causa dos ocupantes mas que nada poderia fazer, já que a questão era da alçada dos governos do estado e do município.
Representantes da Igreja Católica e de diversas entidades da sociedade civil entraram com uma representação junto ao Ministério Público responsabilizando os governos municipal e estadual caso o conflito descambe para confrontos mais graves e até mortes. O vereador Elias Vaz (P-SOL) e o deputado estadual Mauro Rubens (PT) têm prestado toda a solidariedade ao movimento do Sonho Real e, por isso, são alvo de um inquérito movido pela Secretaria de Segurança do Estado.
A pressão da especulação imobiliária e a postura subserviente dos governos municipal e estadual aos interesses privados diante da falta de uma política de moradia popular, poderá levar a um massacre em Goiânia. O governo Lula tem conhecimento do problema, mas parece se eximir de responsabilidade, como aconteceu na Amazônia no recente episódio dos assassinatos da freira Dorothy Stang e de outros dois sem-terra da região.
Sem-tetos assassinados e líderes presos durante desocupação
Dois sem-teto foram assassinados e mais de duas dezenas estão gravemente feridos devido à truculência da Polícia Militar durante o início da desocupação, na manhã desta quarta-feira, 16 de fevereiro.
Entre os mais de 800 sem-teto presos, está um dos lideres do movimento, Américo Rodrigues, que foi preso e imediatamente iniciou uma greve-de-fome contra a desocupação e depredação do patrimônio construído pelos trabalhadores sem-teto. Américo exige o reinício das negociações com as famílias que pretendem continuar no local.
Fonte: www.mtl.org.br
